Nenhum astronauta ficou tanto tempo no espaço quanto o russo Valery Polyakov. Entre janeiro de 1994 e março de 1995, ele passou 437 dias, dezessete horas e 58 minutos a bordo da (hoje extinta) estação orbital Mir. Nos quase quinze meses de missão, Polyakov praticava duas horas diárias de exercícios físicos. Mesmo assim, de volta à Terra, foi preciso uma semana de muita fisioterapia para que Polyakov voltasse a andar normalmente. Seus músculos e, especialmente, seus ossos voltaram do espaço em frangalhos. O enfraquecimento do esqueleto é uma das conseqüências mais nefastas da permanência prolongada em ambientes de gravidade zero. Cada mês passado no espaço leva a uma perda média de 2% de massa óssea – o equivalente ao desgaste anual sofrido por uma pessoa saudável entre os 30 e os 40 anos. A força da gravidade causa um atrito natural entre músculo e osso. Sem essa fricção, o ritmo da renovação óssea cai brutalmente e o esqueleto enfraquece. Há relatos de tripulantes que continuaram a sofrer os efeitos da falta de gravidade sobre os ossos mais de dois anos depois do retorno para casa. Encontrar uma forma de conter a deterioração óssea dos astronautas é, portanto, um dos maiores desafios dos programas espaciais. Nos Estados Unidos, os estudos em busca de uma solução resultaram na criação da primeira máquina para o tratamento da osteoporose, doença com 200 milhões de vítimas no mundo, 10 milhões delas no Brasil. Seu uso aqui na Terra já está liberado. Os primeiros exemplares acabam de chegar ao país.

Batizado de terapia de movimento dinâmico, o tratamento prevê o uso de uma plataforma. Geralmente possui 55 centímetros de largura e 9 de altura, o aparelho lembra muito uma balança caseira. Seu princípio é simples: a máquina começa a vibrar sob o peso do paciente. Embora a trepidação seja levíssima, para conseguir se equilibrar a pessoa contrai instintivamente todos os músculos do corpo. É essa contração que detona o processo fisiológico que causa microlesões nos ossos. Para reparar o dano, o organismo, então, aumenta a produção de células de reconstrução óssea – e faz o esqueleto fortalecer-se contra possíveis novas agressões, entre elas a osteoporose. O segredo da nova tecnologia está na precisão das vibrações: não importa o peso da pessoa, a máquina está programada para fazer com que os músculos se contraiam 35 vezes por segundo, a intensidade mínima necessária para estimular a reconstrução óssea. Quase uma centena de trabalhos científicos comprovou os benefícios da plataforma: vinte minutos diários sobre a plataforma proporcionam um ganho anual de 2% de massa óssea. “Criamos a primeira terapia não medicamentosa segura para o combate à osteoporose”, disse a VEJA o engenheiro Clinton Rubin, diretor do centro de biotecnologia da Universidade Estadual de Nova York e inventor da Juvent (Plataforma vibratória). O desenvolvimento do aparelho foi patrocinado pela Nasa, a agência espacial americana, e pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH).

A criação de uma máquina capaz de fortalecer o esqueleto é fruto da descoberta do grande grau de influência dos músculos sobre os ossos – um capítulo relativamente novo na história da medicina, datado do início dos anos 80. Com o aprofundamento das pesquisas na área de biologia molecular e o refinamento tecnológico dos exames de imagem, conseguiu-se determinar como a saúde óssea está intrinsecamente associada à saúde muscular. Uma das evidências mais claras dessa relação vem da observação de atletas profissionais. O braço mais musculoso de um tenista, o que ele usa para bater e rebater a bola, tem pelo menos 10% mais massa óssea do que o outro.

A plataforma vibratória é indicada para pacientes com osteopenia, um estágio anterior à perda significativa de massa óssea, e como coadjuvante do tratamento com remédios da osteoporose. “O estímulo mecânico produzido pelo aparelho potencializa a ação dos medicamentos, o que nos permite, em muitos casos, reduzir as suas dosagens”, diz a fisiatra Pérola Grinberg Plapler, diretora da divisão de medicina física do Instituto de Ortopedia e Traumatologia, do Hospital das Clínicas, em São Paulo. A esperança é que, com a plataforma, a adesão à terapia contra a osteoporose aumente. Hoje, metade dos pacientes deixa de lado os cuidados com a doença. As principais queixas se referem ao modo de administração e às reações adversas dos remédios. Alguns requerem injeções diárias e a maioria pode levar a distúrbios gastrointestinais, como náuseas, vômitos, gastrite e úlcera. “Quero ficar longe desses efeitos”, diz a administradora de empresas Érica Georgine Vaccaro, de 58 anos. Ao receber recentemente o diagnóstico de osteopenia, ela comprou uma plataforma que custa 8 450 reais. Érica se submete a sessões diárias no escritório. “Tentarei controlar o avanço da doença com essa máquina e a suplementação de cálcio.” Encontrado, sobretudo, no leite e em seus derivados, o cálcio funciona como uma espécie de tijolo na construção de ossos fortes.

Como acontece em relação a todos os tecidos do corpo humano, os ossos sofrem uma renovação constante. A saúde do esqueleto depende da destruição das células velhas e de sua substituição por outras mais jovens. Nos ossos, esse processo decorre da ação antagônica de dois tipos de células, os osteoclastos e os osteoblastos. Os primeiros são responsáveis pela corrosão dos ossos. Os segundos, por sua reconstrução. Até os 30 anos, quando o desenvolvimento ósseo atinge o seu ápice, os osteoblastos são mais ativos do que os osteoclastos. A partir dessa idade, a tendência é a de que o ritmo de destruição óssea supere o de regeneração. Depois dos 45 anos, o esqueleto tende a ficar 5% mais fraco a cada ano. Quando a massa óssea é 25% inferior ao que era aos 30 anos, o diagnóstico é de osteoporose. Não há cura para o mal, só paliativos. Até hoje não se inventou nada capaz de repor a contento a massa óssea perdida. A única arma eficaz no combate à osteoporose são os cuidados tomados desde a juventude – dieta equilibrada e prática regular de exercícios físicos. Quanto à última recomendação, não é preciso se esfalfar na academia. Tome-se como exemplo o esforço de uma pessoa para se manter sobre a plataforma vibratória: ele equivale ao de uma caminhada leve.

Fonte: Veja

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